segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

São Francisco Xavier: fogo devorador de um coração missionário

São Francisco Xavier

São Francisco Xavier: fogo devorador de um coração missionário
A paixão que sentia pela salvação das almas o levava a exigir punição exemplar para quem merecia

A fortaleza medieval de Javier nunca teve destacada importância, nem na paz nem na guerra; Mas não há quem não tenha ouvido falar o seu nome, devido ao grande missionário jesuíta São Francisco Xavier, que ali nasceu.

Em 1520, quando Francisco tinha 14 anos -- nascera em 1506 -- seus irmãos participaram do cerco de Pamplona, entre cujos defensores se encontrava Iñigo de Loyola, depois Santo Inácio.

Alguns anos mais tarde, em 1525, afastou-se de casa para estudar em Paris, onde sua residência era o colégio Santa Bárbara, ao que parece uma instituição destinada à hospedagem de estudantes espanhóis e portugueses.

Em 1529, Iñigo, que tinha ido a Paris estudar humanidades e procurar companheiros para a obra que pretendia fundar, também se tornou hóspede do Santa Bárbara. Francisco, como estudante mais antigo, foi indicado para orientar o novo hóspede nos passos iniciais de seus estudos. Porém, como nutria grande antipatia por Iñigo, Francisco passou essa tarefa a Pedro Fabro, que a aceitou com muito gosto e dela tirou grande proveito para sua alma. Francisco procurava de todos os modos afastar-se de Inácio, a quem considerava ridículo, zombando com sarcasmos de seus esforços para trazer as almas a Deus. Inácio já havia percebido grandes qualidades em Francisco, e procurou exercer alguma influência sobre ele. Por mais de dois anos seus esforços não obtiveram qualquer resultado.

A submissão completa de Francisco à direção de Inácio só se deu em setembro de 1534, mês que Francisco dedicou a um retiro segundo os Exercícios Espirituais que Inácio havia escrito. Nunca tal obra mostrou com maior eficácia seu poder de transformar um homem, como durante aquele mês em que Francisco lutava na solidão, entre anjos e demônios. Nem o próprio Inácio, que o visitou e aconselhou durante todo o tempo, era capaz de dominar por completo o fogo devorador que a meditação havia acendido em seu coração ardente de espanhol.

Foi, até o fim de sua vida, um homem apaixonado, capaz de iras santas sem deixar de ser um dos mais generosos. No fundo de seu coração era ainda um homem da Idade Média, que não media esforços para obedecer a Deus. Em certa ocasião, estourou um vaso sangüíneo seu, devido à energia com que rechaçou uma tentação.

Rumo ao Oriente

Apesar de demonstrar muito desejo de ir para o Oriente, só empreendeu a viagem porque um dos dois escolhidos adoeceu. Certo dia Santo Inácio o chamou e comunicou-lhe que, por ordem do Papa, dois religiosos da Companhia de Jesus deveriam ir à Índia. Como um não podia ir por estar enfermo, acrescentou sem rodeios, como é corrente entre dois espanhóis: "Esta é vossa empresa!". "Pois eis-me aqui!", respondeu Francisco. E calmamente começou a remendar uma velha calça e uma miserável batina.

Duas mil léguas de viagem o esperavam. Na primeira parte do trajeto, foi até Lisboa, cidade que palmilhou de um extremo a outro, praticando a caridade. A pedido do Infante D. Henrique, visitava e assistia os presos da Inquisição. Esta Inquisição portuguesa foi estabelecida no país pelo Rei D. João III, sendo seu Grande Inquisidor o Infante D. Henrique.

A respeito dessas visitas, Francisco escreveu a Inácio, em 22 de outubro de 1540:

"O infante D. Henrique, Grande Inquisidor deste reino, irmão do rei, nos recomendou várias vezes que déssemos assistência aos presos da Inquisição. Assim, nós os visitamos todos os dias e os ajudamos a conhecer a mercê que Nosso Senhor lhes faz ao detê-los lá. Fazemos pregações todos os dias .... muitos nos dizem que Deus Nosso Senhor lhes fez grande mercê ao fazê-los conhecer muitas coisas necessárias para a salvação de suas almas".

Apesar de seu terno coração, e de sua compaixão para com seus semelhantes, Francisco considerava justas as sentenças da Inquisição e admitia a pena da fogueira como punição de heresia. O fato de que homens como ele e Santo Inácio -- o qual já fora vítima da Inquisição -- não vissem injustiça no procedimento dos tribunais é um argumento que não pode ser desprezado pelos que buscam a verdade histórica, e não a lenda.

Três oceanos e um ano de viagem -- durante a qual todos o tinham já por santo -- ainda faltavam para chegar ao destino!

Como votava pouca simpatia pelos mouros, e tendo visto a grande cruz colocada pelos portugueses em Melinde, comentou em uma carta: "Deus Nosso Senhor sabe quanta consolação recebemos, conhecendo quão grande é a virtude da Cruz, vendo-a assim só e com tanta vitória entre tanta mouraria". Era um homem capaz de todas as temeridades para salvar um cristão, mas quando se tratava de um empedernido infiel, parecia outro.

A voz lhe faltava, de tanto repetir o Credo

Nunca se mostrou mais heróico do que nas peregrinações efetuadas de vila em vila na Indonésia. No verão, era como caminhar sobre brasas, e na época das chuvas, no meio da lama; quando o vento do Indico soprava, enchia tudo de areia e pó; respirava-se pó, comia-se pó; o pó invadia tudo. Apesar de ser conhecida a quantidade de insetos que infestavam a Indonésia, não aparece em nenhuma carta sua o zumbido deles! Seu travesseiro era uma pedra, e só em Deus esperava.

Francisco Xavier era um homem que não conhecia o medo. Caminhava dezenas de milhas para um lado, centenas para outro, no meio de animais e homens selvagens, bem como de enfermidades. Ele mesmo relata que achava bárbara aquela gente ainda sujeita ao canibalismo. Havia ilha onde um de seus habitantes, quando queria dar uma grande festa, pedia a um vizinho seu o pai para ser comido, prometendo entregar-lhe o seu quando envelhecesse!

Único homem branco naquele mar de areia e sol, era incansável em sua faina apostólica. Muitas vezes, quase não podia mover o braço, devido ao grande número de batismos que conferia, e faltava-lhe a voz de tanto repetir o Credo e os Mandamentos.

Em um mês batizou mais de 10.000 pessoas. Para isso, juntava todos os homens e meninos; depois, mandava-os embora e chamava as mulheres e filhas. Após os batismos, determinava que se derrubassem as casas onde havia ídolos, quebrando-os em muitíssimos pedaços. Causava-lhe grande consolação ver os ídolos serem destruídos pelas mãos dos que foram idólatras. Xavier andava de lugar em lugar, transformando idólatras em cristãos.

Majestade, enviai a Inquisição

A sua extrema bondade tinha como auxiliar uma grande vigilância, e por isso recomendava que se vigiasse muito os Padres do rito católico oriental malabar, para que não se condenassem e nem levassem outros à perdição. E se fossem vistos fazendo o mal, recomendava que se os repreendesse e castigasse, pois é um grande pecado não dar castigo a quem merece, especialmente aos que com sua vida escandalizam a muitos.

Sugeriu ao Rei de Portugal, para o bem espiritual dos cristãos da Índia: "É [necessário] que mande Vossa Alteza a Santa Inquisição, porque há muitos [cristãos] que vivem a lei mosaica e a seita mourisca sem nenhum temor de Deus nem vergonha do mundo. Como são muitos e espalhados pelas fortalezas, é necessário a Santa Inquisição e muitos pregadores. Provenha Vossa Alteza a seus leais e fiéis vassalos da Índia de coisas tão necessárias". Isto porque, no seu entender, a heresia é a mais espantosa das calamidades, porque leva à ruína das almas.

Para evitar escândalos, dava conselhos preciosos aos jesuítas que ia deixando pelo caminho: "Deveis estar de sobreaviso em relação a todas as pessoas com que conversais espiritualmente, tanto com os muito amigos como com os pouco e com os outros, como se eles, algum dia, se tornassem seus inimigos. Usai dessa prudência sobre este mundo mau, e sempre andareis senhores de si e alegrareis mais a Deus".

Contemplando seu rosto, enchia-me de alegria

Em 1547, escutou pela primeira vez notícias concretas do Japão quando conheceu os primeiros homens daquelas terras. "Fiquei completamente subjugado por ele", disse o japonês Anjiró. "Eu sentia fortalecer-se minha alma cada vez que o olhava, e bastava contemplar seu rosto para me encher de consolo e alegria".

Afinal chegou o dia de percorrer as três mil milhas para chegar ao Japão. O comandante do único barco que aceitou levá-lo era um pirata idólatra, apelidado Ladrão. Evidentemente não faltou o dia-a-dia daqueles mares: uma tormenta que durou três dias e três noites, como nunca se viu, fazendo muitos chorarem em vida suas mortes.

Seu sentido dos direitos supremos de Deus era tão agudo que nunca demonstrou a menor tolerância em relação à idolatria. Quando Ladrão morreu, comentou em uma carta: "Foi-nos bom em toda a viagem e nós não lhe pudemos ser bons, pois morreu em sua infidelidade; nem depois da morte podemos sê-lo, encomendando-o a Deus, por estar sua alma no inferno".

Lá estava o missionário, nos ventos gelados de Kagoshima, no Japão, com uma batina de algodão, feita para o calor da Índia. Sua memória, apesar de ser excelente, levou 40 dias para decorar os Mandamentos na nova língua ensinada por Anjiró.

A caminho da China, sua última missão, precisou acalmar uma tempestade para seguir adiante. Mas antes de chegar ao destino a tempestade da vida o levou deste mundo.

No caixão, seu olhar parecia vivo

O amor que resplandecia em seus olhos negros, cheios de fogo, e queimava seus lábios, o levou deste mundo aos 46 anos. Foi uma morte pobre e humilde, como correspondia a um homem que imaginava que ninguém ia se lembrar dele. Doloroso paradoxo: graças a ele milhares de pessoas receberam, em sua última hora, os consolos da Igreja, o que não aconteceu com ele. Era 3 de dezembro de 1552.

A chegada do corpo incorrupto em Goa, um ano mais tarde, foi sob o toque festivo de todos os sinos, como se fazia com um grande príncipe ou conquistador. Durante quatro dias a multidão enchia a igreja para beijar seus pés imóveis, que tanto haviam ali caminhado. Seus olhos negros se mantinham como se estivessem vivos, com um olhar penetrante. Era uma tão grande maravilha, que o comissário da Companhia holandesa se converteu instantaneamente.

Foi canonizado em 12 de março de 1622, junto com Santo Inácio, Santa Teresa de Jesus, São Felipe Neri e Santo Isidoro de Madri. Um cortejo digno de sua epopéia missionária.

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Fonte de referência:
James Brodrick, SJ: San Francisco Javier (1506-1552) -- Espasa-Calpe, Madrid, 1960.

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